3 de set de 2008

Novela da vida real

Mais uma vez voltando pra contar a desgraça alheia. Vamos falar de Cleide (nome fictício), uma garota sonhadora de São Miguel (zona leste de São Paulo). Cleide passou a vida muito depressiva pois era a filha do meio e seus irmãos sempre foram queridos, um por ser mais velho e o outro por ser mais novo. Ela era a esquecida, quase ninguém da família lembrava dela, só a mãe, às vezes, por ela ser menina. Cresceu assim, largada nas ruas da zona leste de São Paulo, convivendo com ratos, mendigos, lixo e forró. Quando tinha 16 anos, Cleide começou a freqüentar os bailes de forró da zona leste e aí começou a ter amigos, se sentiu querida finalmente, depois de anos de anonimato dentro de casa. Andando com a rapaziada do bairro, Cleide passeava pelas ruas de madrugada, pra voltar pra casa, sempre cambaleante de beber xiboquinha, e ninguém em casa reclamava, afinal ela era praticamente invisível.
Num show de Frank Aguiar, Cleide conheceu Jonas (nome fictício), um cara gente boa e animado. Ralaram coxa até as 6 da manhã, quando ele disse que levava Cleide pra casa dela em seu fusquinha. Cleide chegou em casa sublime, com o papelzinho com o número do orelhão perto da casa de Jonas, que ele pediu pra ela ligar as 9 da noite, que era a hora que ele chegava do serviço. Muito animada, Cleide comprou 5 fichas (na época não tinha cartão) e ligou às 9 da noite pro orelhão do Jonas. Ali começava uma história surpreendente que mudaria a vida dos dois.
Jonas e Cleide se viam direto, saiam sempre, começou um romance juvenil, Cleide no alto de seus 16 anos e Jonas com seus 23 anos, sempre indo de forró em forró, atravessando a cidade pra ir no CTN (Centro de tradições nordestinas), o fusquinha embalava o amor dos dois. Cleide estava tão feliz que finalmente sua família começou a reparar na existência dela, sua felicidade era radiante. A mãe perguntou qual o motivo de tanta alegria, Cleide disse “tô namorando, mammy”, a mãe dela hiperventilou com a boa nova, a filha enfim era uma pessoa e não um vulto na casa. Eu esqueci de falar, mas a Cleide tinha um melhor amigo, seu cabeleireiro e manicure, Ale. O Ale é aquela bichinha pão com ovo da zona leste, que ia na Broadway, na Overnight e nas baladinhas ‘clubber’ da zona leste. Ale tinha o cabelinho azul, usava roupa colorida e se achava the next fashion icon, a Cleide adorava fazer a unha com ele, porque aí ela se sobressaía das outras gurias do forró, com as unhas laranja, azul e seu cabelo vermelho cor de fogo, muitas vezes magenta, quando o Ale comprava a tinta italiana na galeria do rock e levava pra Cleide.
No aniversário de 17 anos da Cleide, a família decidiu fazer uma festa e Cleide chamou geral da zona leste e falou que seu namorado podia trazer quem quisesse também. Foi que foi, rolou um bailão que tocou forró, pagode e no fim o cd de músicas 80’s do Ale. Jonas bebeu demais na festa e dançou loucamente Abba, o que despertou desconfiança para a mãe de Cleide e seu irmão mais velho, que é cabeleireiro (mas não é gay). Cleide disse que não tinha nada a ver, que era o álcool que subiu. A mãe e Cleide perguntou “mas o Jonas já te comeu?”, Cleide, sem graça, respondeu “ele é um moço respeitador, eu sou virgem!”.
Passaram-se 2 dias e Cleide, encafifada, resolveu que queria meter com Jonas e começou a instigar o cara, aproveitando do fusquinha, pra eles irem ao motel. “Mas você é de menor, Cleide” – dizia Jonas. “A gente tá na ZL, aqui não pedem RG” – rebatia a moça. Começou aí a desconfiança de Cleide, por que será que seu namorado não quer come-la? Cleide desabafa com a mãe, que propõe que ele durma em casa com ela (que família moderna, NE?). Cleide convida Jonas pra passar a noite com ela em casa, ele cambaleia mas vai. Depois de muita mão naquilo, finalmente ele comeu a Cleide e ela se sentiu aliviada... Não era mais virgem e seu namorado não era gay.
Um dia Cleide vai pra um baile eletrônico com Ale, escondida do namorado. Ela não agüentava mais ir ao forró e descobriu que queria ser clubber, já tinha o cabelo e as unhas coloridas, era meio caminho andado. Na volta, toda malandra por ter saído escondida, resolve passar no boteco do seu João, duas ruas antes de sua casa, pra tomar uma água e comprar uma balinha pro bafo de pinga, afinal agora sua família sabia de sua existência e não admitiria uma menor de idade bêbada fazendo barulho em casa. Saindo do bar, ela resolve ir por uma pracinha, pra enrolar e chegar em casa menos bêbada. Quando ela vê o fusquinha de Jonas parado debaixo de uma arvorezinha. No escuro, ela agacha pra não ser vista e vai andando de mansinho até o fusca. Certeza que era do Jonas, será que foi roubado? Será que o Jonas está esperando por ela?
Quando ela olha dentro do vidro, está Ale, seu melhor amigo, pagando um boquetinho para Jonas, seu namorado. Ela não se contém e grita, acordando metade da zona leste com o grito. Os dois param e ela sai correndo. Ale corre atrás mas depois desiste, a moça está estarrecida.
Ela tenta entender, não consegue dormir, acorda a mãe dela e conta o que viu. No outro dia Ale passa lá, mas é posto pra fora pela mãe de Cleide, ele grita pra rua inteira ouvir “Foi depois do seu aniversário, ele que veio atrás de mim, a gente ia te contar”. Cleide vira motivo de chacota para a rua inteira, depois para o bairro inteiro. Ela mal podia sair de casa, ir à escola, pagar uma conta no banco sem que as pessoas a apontassem e falassem “ela foi traída pela moninha do fusca”. Depressão. Loucura. Depois de 2 anos de tratamento, Cleide conseguiu se reerguer, fez novos amigos, entrou na faculdade. Começou a freqüentar lugares mais dignos e até fez novos amigos gays. Cleide só conseguiu namorar alguém de novo 5 anos após esse trauma, um garoto 10 anos mais novo que ela, que a amava e obedecia como um filho. Ale e Jonas ficaram juntos por 3 anos, depois que terminaram, ambos ficaram amigos de Cleide, mas cada um no seu quadrado, pois terminaram muito brigados. Atualmente Ale se apresenta como Pandora Presley (nome artístico fictício) em uma boate gay no Largo do Arouche.

Um comentário:

saulo disse...

Divertido esse post, apesar de triste. É algo que pode ilustrar bem o espírito do país, tipo rir pra não chorar (tristeza do jéca). E o texto prende a atenção, flui, mesmo sendo um tanto extenso pra ler na tela.

Agora os outros posts ein... revista de celebridades de empregada, daquelas de formato pequeno que vendem no caixa do supermercado por um real.